G1 - 1ยช turma com cotistas negros se forma na Faculdade de Direito da USP
- adoteumalunosp
- 17 de abr. de 2023
- 5 min de leitura
Ao longo dos 5 anos de curso, cotistas transformaram a universidade com novos debates e luta por polรญticas de permanรชncia mais efetivas.

Primeira turma com cotas รฉtnico-raciais da Faculdade de Direito da USP acaba de se formar โ Foto: Arquivo pessoal/ Uoon
โOlhava ao meu redor e pensava: 'serรก que deveria mesmo estar aqui?โ.โ
โEu me sentia uma extraterrestre.โ
โContei nos dedos quantos negros vi ali. Fiquei assustada.โ
As frases acima foram ditas por alunos cotistas que ingressaram na Faculdade de Direito da Universidade de Sรฃo Paulo (USP) em 2018, na 1ยช turma โ em quase 200 anos de histรณria da instituiรงรฃo โ a ter vagas reservadas para pretos, pardos e indรญgenas.
Apรณs concluรญrem o curso em dezembro de 2022, os estudantes reuniram-se no fim de janeiro para tirar as fotos da formatura (veja abaixo). Filhos de faxineiras, garis, pedreiros, donas de casa e professores, esses 35 jovens venceram a sensaรงรฃo inicial de nรฃo pertencimento ร faculdade e promoveram uma sรฉrie de transformaรงรตes na instituiรงรฃo ao longo dos รบltimos 5 anos, como:
Implementaรงรฃo de polรญticas de permanรชncia mais efetivas, com reajuste de bolsas para jovens de baixa renda e reformas na residรชncia estudantil;
inclusรฃo de novos debates em sala de aula e de autores negros nas bibliografias das disciplinas.
โA gente nรฃo podia se dar ao luxo de sรณ estudar. A primeira turma de cotistas negros tinha de ser ativa politicamenteโ, conta Letรญcia Lรฉ, de 24 anos.
Ela relembra que havia certo espanto com a sua presenรงa ali. โEu andava pela faculdade e ouvia: โmas vocรช estuda aqui?โ. Havia um estranhamento em ver alunos como nรณs. Acho que agora, 5 geraรงรตes depois, os novos cotistas que entram ficam mais confortรกveis de sentir que รฉ um espaรงo deles tambรฉm.โ
Em dezembro de 2022, na turma de Letรญcia, formaram-se 312 estudantes, sendo:
237 via Fuvest (vestibular);
75 via Sistema de Seleรงรฃo Unificada (Sisu, que usa as notas do Exame Nacional do Ensino Mรฉdio). Destes, 35 sรฃo cotistas pretos, pardos e indรญgenas.
No cargo que jรก foi de Haddad, uma filha de caminhoneiro e empregada domรฉstica
Um dos grandes marcos dessa luta polรญtica dos alunos mais pobres aconteceu em 2019, quando, pela primeira vez em 116 anos, uma mulher negra ganhou as eleiรงรตes internas para ser presidente do mais antigo centro acadรชmico do Brasil: o XI de Agosto.
O cargo, que jรก havia sido ocupado pelo ex-senador Aloysio Nunes Filho (PSDB) e pelo ministro Fernando Haddad (PT), por exemplo, passou a ser da cotista Letรญcia Chagas, de 22 anos, filha de um caminhoneiro e de uma empregada domรฉstica aposentados.
โMeus colegas tinham pais e avรณs que fizeram a Sรฃo Francisco [como รฉ conhecida a faculdade] โ e o direito tem muito de tradiรงรฃo e networkingโ, diz.
Chagas conta que, no comeรงo, sentia dificuldade nas disciplinas que exigiam domรญnio de outros idiomas. โFaz muita diferenรงa nรฃo ter o mesmo capital cultural que os outros alunos, porque a maioria dos escritรณrios exige que a gente saiba mais de uma lรญngua [nos processos seletivos para estรกgio].โ
Esse tipo de obstรกculo pressionava o grupo.
โNรณs sentรญamos uma responsabilidade muito grande. Se errรกssemos e fรดssemos mal, isso ia virar argumento contra cotas. Precisรกvamos ter notas boas. Era um peso.โ
Com o passar dos anos e a ampliaรงรฃo das polรญticas de cotas, universidades brasileiras, inclusive a USP, passaram a oferecer programas gratuitos de aulas de inglรชs. Ao g1, a Faculdade de Direito afirma que atualmente tem uma parceria com escritรณrios para facilitar a contrataรงรฃo de cotistas.
Lutas polรญticas
A chapa de Letรญcia Chagas no centro acadรชmico e o movimento polรญtico Travessia levantaram debates para vencer as principais dificuldades dos alunos das cotas รฉtnico-raciais. Veja abaixo:
Como se bancar com R$ 400?
Os alunos de baixa renda da Faculdade de Direito da USP recebiam da instituiรงรฃo, em 2018, R$ 400 por mรชs como auxรญlio financeiro (atualmente, sรฃo R$ 600). Aos poucos, outros programas de assistรชncia foram criados pela iniciativa privada, como o โAdote um alunoโ, sustentado por contribuiรงรตes financeiras de quem jรก estudou lรก, e o โProjeto de Promoรงรฃo ร Dedicaรงรฃo Acadรชmicaโ, que oferece auxรญlio a quem se dedica a atividades acadรชmicas.
Ainda assim, para os cotistas que precisavam ajudar a famรญlia, era difรญcil se bancar em Sรฃo Paulo.
โNas fรฉrias, vรญamos no Instagram nossos colegas na Europa. Vivemos graduaรงรตes diferentes, nรฃo tem jeitoโ, conta Erick Araรบjo, de 23 anos, filho de uma diarista e um dos formandos da 1ยช turma com cotas รฉtnico-raciais.
Ao g1, a Faculdade de Direito da USP diz que, โdepois de muita movimentaรงรฃo dos estudantes sobre a insuficiรชncia deste valor para a permanรชncia, a universidade promete aumentar o valor [de assistรชncia estudantil] neste anoโ.
Nรฃo pode trabalhar no comeรงo do curso
Com o aumento do nรบmero de alunos de baixa renda, uma orientaรงรฃo comum dos professores deixou de fazer sentido: nรฃo dava mais para pedir que a turma se dedicasse exclusivamente ao curso de direito e sรณ trabalhasse depois do terceiro ano da graduaรงรฃo.
โComo que um aluno que veio de outro estado vai se manter? Esses discursos vรฃo violentando quem nรฃo tem suporte. Criamos quilombos para nos apoiarโ, conta Erick.
'Sem a moradia estudantil, eu demoraria mais de 2 horas no trajeto'
Reuniรตes entre esses alunos da 1ยช turma de cotas รฉtnico-raciais aconteciam frequentemente na Casa do Estudante, moradia estudantil gratuita no centro de Sรฃo Paulo, onde vivem atualmente 55 jovens matriculados na Faculdade de Direito da USP.
โO prรฉdio estava muito degradado na pandemia. Mas, depois de uma reforma, estamos com condiรงรตes melhores agora.โ
No caso de Erick, foi essencial contar com a residรชncia da universidade. Antes de passar no vestibular, ele morava em um conjunto habitacional na periferia de Sรฃo Paulo. โDo Itaim Paulista atรฉ a USP, eu demoraria de 2 a 2,5 horas em cada trajeto. Teria perdido a possibilidade de participar de projetos extracurriculares, de fazer parte do centro acadรชmico e de estagiar desde cedoโ, conta.
'Mudaram as provocaรงรตes'
Letรญcia Chagas diz que, na semana de calouros, o coletivo Travessia batalhou para que houvesse novos debates sobre as reformas da Casa do Estudante e as polรญticas de permanรชncia.
Por meio tambรฉm desse movimento polรญtico, o grupo de alunos conseguiu que professores incluรญssem na bibliografia do curso novos temas e teรณricos negros importantes para o direito.
โMudaram as provocaรงรตes. Nรฃo que os alunos brancos nรฃo se preocupassem com racismo; muitos eram nossos aliados. Mas a gente trouxe [esse debate] com mais รชnfaseโ, conta Chagas.
Mudanรงas de vida: aluna a caminho do segundo intercรขmbio
Erick chora ao falar das mudanรงas que a entrada na universidade promoveu em sua vida.
โSaรญ de uma escola muito precรกria e hoje tenho a oportunidade de participar intelectualmente da vida polรญtica do paรญs.โ
Outra aluna dessa turma, Gislaine Silva, de 24 anos, รฉ filha de pedreiro e de dona de casa, e estรก se preparando para o seu segundo intercรขmbio pela USP โ jรก estudou na Franรงa, e, agora, vai para a Espanha.
โSaรญ da minha cidade [Sรฃo Carlos, em SP] e cheguei a Sรฃo Paulo com a minha mochilinha. Nรฃo consegui me identificar com as pessoas, me sentia um extraterrestre. Agora, [depois de 5 anos de cotas], vai ter gente pobre como eu, que veio da periferia, mostrando que a universidade รฉ um lugar perfeito para nรณs.โ
ENDEREรO DA PรGINA
https://g1.globo.com/educacao/noticia/2023/02/04/filhos-de-garis-pedreiros-e-faxineiras-1a-turma-com-cotistas-negros-se-forma-na-faculdade-de-direito-da-usp.ghtml